Como o STJ vem separando os casos
Este é um tema em construção, e conhecer a linha divisória evita tanto expectativa frustrada quanto caso abandonado sem necessidade:
- Dados sensíveis (art. 5º, II da LGPD — biometria, saúde, dados genéticos): dano moral presumido, sem necessidade de provar prejuízo. Foi o que decidiu a 3ª Turma do STJ em 2025, num caso de vazamento de dados de saúde entregues a uma seguradora (REsp 2.121.904) — uma decisão de turma, que orienta os tribunais, mas ainda não os obriga.
- Dados comuns vazados: é preciso demonstrar a consequência concreta (AREsp 2.130.619/SP, de 2023). O mero vazamento, isolado, não basta.
- Dados cadastrais repassados a terceiros por gestor de banco de dados sem base legal: a 3ª Turma reconheceu dano presumido em agosto de 2025 (REsp 2.201.694), pela perda de controle do titular sobre o dado já disseminado.
O que continua a favor do consumidor
A responsabilidade do banco é objetiva: não se discute culpa, e sim se houve falha na segurança do serviço. Cabe à instituição comprovar que adotou as medidas de proteção exigidas — não ao cliente provar que o banco foi descuidado.
O que fazer nas primeiras 48 horas
- Troque senhas de banco, e-mail e aplicativos, começando pelo e-mail, que é a chave de recuperação de tudo;
- Peça por escrito à empresa, pelo canal do encarregado de proteção de dados (o contato fica na política de privacidade do site dela), a confirmação do incidente, quais dados seus foram atingidos, de onde vieram, com quem foram compartilhados e o que ela fez para reduzir o estrago. Guarde o protocolo;
- Cobre os prazos: o aviso sobre o incidente tem prazo de três dias úteis (Resolução ANPD nº 15/2024), e o pedido de acesso aos seus dados tem de ser respondido de forma clara e completa em até 15 dias (arts. 18, II, e 19, II, da LGPD);
- Ative o BC Protege+, na área logada do Meu BC (é preciso conta gov.br prata ou ouro, com verificação em duas etapas): com ele ligado, as instituições ficam impedidas de abrir conta no seu nome e de incluir você como titular ou representante em conta de terceiros;
- Se você recebe benefício do INSS, ative também o bloqueio de empréstimo consignado no Meu INSS. Atenção: nenhum dos dois bloqueia operações nas contas que você já tem — por isso os outros passos continuam necessários;
- Verifique se surgiram contratos ou consultas ao seu CPF que você não reconhece;
- Exija a exclusão ou o bloqueio dos dados que estiverem sendo usados fora das regras da lei (art. 18, IV, da LGPD);
- Se a empresa não responder no prazo ou responder mal, apresente depois uma petição de titular à ANPD — ela exige a prova de que você procurou a empresa antes, e é aí que o protocolo do pedido faz diferença (art. 18, § 1º, da LGPD). Esses mesmos direitos podem ser cobrados no Procon (art. 18, § 8º, da LGPD);
- Guarde tudo: prints, protocolos, e-mails e mensagens suspeitas recebidas depois do incidente.
Esse registro não é burocracia: é ele que transforma um vazamento genérico — difícil de indenizar — em um caso com dano demonstrado.
Quando o vazamento vira outro problema
Raramente o vazamento é o fim da história. Ele costuma ser a etapa anterior a algo concreto:
- Empréstimo aberto em seu nome — veja empréstimo que você não contratou;
- Ligação com dados que só o banco tinha — veja golpe da falsa central de atendimento;
- Acesso à sua conta e transferências que você não fez — veja invasão de conta bancária;
- Repasse dos seus dados a terceiros sem autorização — veja compartilhamento indevido de dados.
Quando isso acontece, os dois temas andam juntos: a falha de segurança que expôs o dado e a operação fraudulenta que veio depois.
Quando a empresa precisa da sua autorização — e o que ela exige
Nem todo uso de dado depende de você autorizar. A LGPD lista dez situações que permitem o tratamento (art. 7º), e boa parte do que o banco faz se apoia no cumprimento do contrato, em obrigação legal ou na proteção do crédito — a autorização é apenas uma dessas situações, sem prioridade sobre as outras. Mas, quando é ela que sustenta o uso dos seus dados, precisa cumprir cinco exigências:
Livre
Sem pressão e sem vício: autorização genérica é nula. Se a empresa só entrega o produto ou serviço mediante o uso dos seus dados, ela é obrigada a avisar isso em destaque.
Expresso
Manifestação clara e inequívoca, sem caixas pré-marcadas ou silêncio tratado como aceite.
Esclarecido
Transparência sobre quais dados são coletados, para quê e com quem serão compartilhados.
Específico
Dado coletado para uma finalidade não pode migrar para outra — é desvio de finalidade.
Prévio
A autorização vem antes do acesso, nunca como regularização posterior.
Sinais de que seus dados circularam
- Ofertas de empréstimo logo após abrir conta ou começar a receber benefício;
- Ligações que citam valor do seu benefício, margem disponível ou número de contrato;
- Consultas ao seu CPF por empresas com as quais você nunca teve relação;
- Mensagens de golpe que acertam dados que você nunca divulgou publicamente.