Com o programa Crédito do Trabalhador, o empréstimo consignado deixou de ser exclusividade de aposentados e servidores e chegou em massa ao trabalhador de carteira assinada — com contratação pela própria Carteira de Trabalho Digital e desconto direto na folha de pagamento. O crédito ficou mais acessível. E, com ele, um problema que antes era típico do INSS migrou para o holerite do CLT: o salário que chega ao fim do mês menor do que deveria.
Resumo rápido
- O desconto de consignado do trabalhador CLT tem teto legal: 35% da remuneração disponível (Lei 15.179/2025 e Lei 10.820/2003)
- A base de cálculo não é o salário bruto: é o que sobra após INSS, IRRF e descontos obrigatórios
- Desconto acima do teto é ilegal e pode ser readequado judicialmente, com restituição do excesso
- Juros acima da taxa média do BACEN, seguros embutidos e refinanciamentos em cascata permitem a revisão do contrato
- Em caso de superendividamento, a Lei 14.181/2021 garante a repactuação das dívidas com preservação do mínimo existencial
Qual o limite de desconto no salário do CLT
A margem consignável do trabalhador celetista é de 35% da remuneração disponível. E aqui mora o primeiro erro — cometido inclusive por bancos: a conta não é feita sobre o salário bruto, nem sobre o líquido final, mas sobre a remuneração após os descontos obrigatórios (contribuição ao INSS, imposto de renda retido, pensão alimentícia).
Um exemplo aproximado: quem recebe R$ 3.000 brutos e tem cerca de R$ 300 de descontos obrigatórios possui remuneração disponível de R$ 2.700. A margem máxima para consignado é 35% disso: R$ 945 por mês — somando todas as parcelas de todos os contratos consignados. O que passar disso está fora da lei.
Como conferir se a sua margem estourou
- Pegue o holerite e localize cada desconto identificado como empréstimo/consignado — eles devem vir discriminados, contrato por contrato.
- Some todas as parcelas consignadas.
- Calcule 35% da sua remuneração disponível (bruto menos INSS, IRRF e descontos obrigatórios).
- Compare. Se a soma das parcelas supera o teto, sua margem está estourada — e há fundamento para readequação judicial dos descontos e restituição do excesso.
- Confira também a Carteira de Trabalho Digital: na área do Crédito do Trabalhador é possível ver os contratos averbados no seu nome. Contrato que você não reconhece é indício de fraude — outro fundamento, ainda mais grave, para anulação.
Quando o contrato de consignado CLT pode ser revisado
O desconto em folha dá ao banco uma garantia fortíssima: ele recebe antes de você. Em troca, a lei exige juros menores e respeito rigoroso aos limites. Quando isso não acontece, o contrato pode ser revisto. As situações mais comuns:
- Margem averbada acima do teto legal — o desconto que deixa o trabalhador sem o mínimo para viver contraria a própria razão de existir da margem, que protege a natureza alimentar do salário.
- Juros acima da taxa média do BACEN para a modalidade consignado privado — a comparação é pública e pode ser feita no site do Banco Central; divergência relevante fundamenta o recálculo.
- Seguros e tarifas embutidos sem contratação expressa (venda casada) — valores que inflam a parcela e devem ser expurgados e restituídos.
- Refinanciamentos em cascata — a prática de "rolar" o contrato sucessivas vezes, que zera o prazo, multiplica os juros pagos e mantém o trabalhador eternamente endividado.
- Desconto ou portabilidade não autorizados — contrato que você não assinou, não autorizou por biometria ou não reconhece é nulo, com direito à devolução em dobro (art. 42, parágrafo único, do CDC).
A revisão pode resultar em readequação das parcelas ao teto, recálculo do saldo devedor pela taxa média de mercado, cancelamento de contratos nulos e restituição — simples ou em dobro — do que foi cobrado indevidamente.
Margem estourada e superendividamento: o mínimo existencial
Quando o problema vai além de um contrato — várias dívidas, descontos em folha, cartão, cheque especial — e a renda deixou de sustentar o básico, a Lei do Superendividamento (Lei 14.181/2021) permite pedir judicialmente a repactuação global das dívidas, com plano de pagamento que preserve o mínimo existencial do devedor e de sua família. O salário existe primeiro para garantir subsistência; nenhum contrato está acima disso.
Passo a passo prático
- Reúna holerites dos últimos meses, contratos (peça a via ao banco — é seu direito) e o extrato de contratos da Carteira de Trabalho Digital.
- Faça a conta da margem (item acima) e anote cada parcela que não reconhece ou que não fecha com o contratado.
- Consulte a taxa média do BACEN para consignado privado no mês da contratação e compare com a taxa do seu contrato.
- Com indícios de excesso ou abuso, busque análise jurídica: a via judicial permite tutela de urgência para readequar descontos que comprometem a subsistência, sem depender da boa vontade do banco.
O consignado é, em tese, o crédito mais barato disponível ao trabalhador. Quando ele vira o motivo de o salário não chegar ao fim do mês, alguma coisa saiu do lugar — e a lei oferece os instrumentos para recolocar.
Fontes: Lei nº 15.179/2025 (Crédito do Trabalhador) | Lei nº 10.820/2003 | Lei nº 14.181/2021 | CDC, art. 42 | Banco Central — Taxas de juros por modalidade
Artigo revisado por Faissal Rafik Saab (OAB/SP 233.165). Atuação exclusiva em Bauru/SP.
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Faissal Rafik Saab
OAB/SP 233.165
Advogado com mais de 20 anos de experiência e 3.000 processos conduzidos, com atuação exclusiva na Comarca de Bauru/SP.
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