MED negado e o banco não devolveu o Pix: o que fazer agora
A negativa do MED não encerra o caso. A demora ou a falha do banco antes e depois do seu aviso pode abrir caminho para pedir o dinheiro de volta. Atendimento 100% digital para Bauru e região.
Por Faissal Rafik Saab — OAB/SP 233.165
Atualizado em
Meu MED foi negado e o banco não devolveu o Pix. Acabou?
Não necessariamente. O MED só devolve se ainda houver dinheiro na conta de destino — e "não havia saldo" não responde se o banco falhou antes, ao deixar o Pix passar, ou depois, ao demorar para bloquear.
Peça a justificativa por escrito, leve à ouvidoria e reclame no Banco Central. Se houve falha — Pix muito fora do seu padrão liberado sem retenção, demora depois do seu aviso, conta de destino aberta sem a verificação exigida —, pode caber ação contra um ou os dois bancos (Súmula 479 do STJ). Se os Pix eram compatíveis com o seu histórico e o banco agiu no tempo, a Justiça tende a afastar a responsabilidade. Cada caso depende das provas.
Por que o MED é negado — e o que isso não quer dizer
Pelas regras do Banco Central, você pode contestar o Pix em até 80 dias; o banco que recebeu deve bloquear o valor assim que chega a notificação, tem até 7 dias para analisar e, confirmada a fraude, o seu banco tem até 72 horas para pedir a devolução — na prática, cerca de 10 a 11 dias no total, se houver saldo. O golpista costuma esvaziar a conta em minutos. Por isso a resposta mais comum é "sem saldo".
Essa resposta encerra o MED, não a discussão. A pergunta que importa é outra: o banco tinha de ter segurado ou recusado aquele Pix antes de ele sair? E agiu a tempo depois do seu aviso?
O que fazer agora, passo a passo
- 1Peça ao banco, por escrito, a justificativa da negativa do MED e guarde o protocolo.
- 2Leve à ouvidoria do banco, que tem até 10 dias úteis para responder.
- 3Registre reclamação no Banco Central e no consumidor.gov.br.
- 4Reúna as provas: extratos (inclusive dos meses anteriores ao golpe), comprovantes, prints, boletim de ocorrência e cada resposta do banco.
- 5Avalie o caso com advogado: houve falha de algum dos dois bancos?
- 6Se houver, ação judicial — no Juizado Especial Cível até 40 salários mínimos, ou na Justiça comum —, com pedido de urgência quando cabível.
Ainda nas primeiras horas após o golpe? Veja antes o que fazer ao cair no golpe do Pix ou o guia geral sofri um golpe: como tentar recuperar o dinheiro. Do outro lado da mesma operação, o MED também pode travar o dinheiro de quem recebeu um Pix e teve o valor bloqueado.
Quando o banco PODE ser responsabilizado
- ✓Falha de segurança ou antifraude do sistema bancário.
- ✓Bloqueio tardio ou ausência de bloqueio de transação atípica/suspeita.
- ✓Desrespeito ao perfil do correntista (transferência muito acima do habitual sem checagem).
- ✓Não acionamento do MED após a notificação da vítima.
- ✓Ausência de confirmação reforçada em transações de alto valor.
Quando o banco normalmente não é responsável
- —Compartilhamento voluntário de senha/código pela vítima, sem falha do banco.
- —Culpa exclusiva de terceiro, sem falha comprovada da instituição.
- —O Pix estava dentro do seu padrão de uso e o banco agiu logo depois do seu aviso (bloqueio imediato e MED aberto corretamente).
- —Transferências feitas por você mesmo, depois de enganado por telefone ou mensagem, compatíveis com o histórico da conta e sem nenhuma falha dos controles do banco: nesse cenário o STJ afastou a responsabilidade do banco (REsp 2.209.868, de 2026).
Existe outro banco que pode responder: o que recebeu o dinheiro
Quando o seu banco nega e a conversa trava, quase todo mundo para por aí. Mas há um segundo caminho que costuma passar despercebido: a instituição que abriu a conta de destino. O dinheiro do golpe não desaparece no ar — ele entra em uma conta que alguém autorizou a existir.
Toda instituição tem o dever de conhecer o próprio cliente antes de abrir conta e de monitorar movimentações incompatíveis com o perfil declarado. Quando uma conta é aberta com documento falso, sem a diligência devida, e passa a receber valores em padrão típico de intermediação de fraude sem qualquer trava, existe falha própria daquela instituição — e não apenas do banco de onde o dinheiro saiu.
Uma ressalva honesta, que costuma ser omitida: essa responsabilidade não é automática. Em agosto de 2024, num golpe do leilão falso, o STJ decidiu que o banco digital que abriu a conta do golpista não responde se provar que fez a verificação de identidade exigida pelo Banco Central (REsp 2.124.423). Ou seja: é preciso demonstrar a falha da instituição — não basta que o dinheiro tenha caído lá. É preciso apontar a falha concreta — abertura irregular, alertas ignorados, movimentação claramente incompatível sem bloqueio — ou a recusa, sem justo motivo, do aviso de fraude que o seu banco enviou pelo MED. Nesse caso, as próprias regras do Pix dizem que o banco que recebeu o dinheiro responde pelo prejuízo causado pela não devolução.
Na prática, isso muda a estratégia do caso: em vez de processar só um banco, passam a existir dois caminhos de responsabilização, cada um com a sua própria falha a demonstrar. E, quando o valor seguiu para uma segunda ou terceira conta, a cadeia pode ser reconstituída — motivo pelo qual registrar a contestação cedo, com protocolo, importa tanto.
O que a instituição da conta de destino era obrigada a checar
A ressalva acima cobra uma falha concreta. Ela existe — e está escrita. As regras abaixo dizem o que qualquer instituição precisa fazer antes de abrir uma conta e enquanto o dinheiro passa por ela: saber quem é o titular, conferir se a movimentação combina com o perfil declarado, tratar certos padrões como suspeitos e guardar o registro dessa análise. Quando nada disso aparece na conta que recebeu o seu dinheiro, é daí que sai o que fundamenta o pedido contra a instituição que a abriu.
Circular BCB nº 3.978/2020
Identificar e qualificar o cliente — inclusive sua capacidade financeira —, classificar seu risco e só iniciar o relacionamento com essa verificação concluída (art. 23; se faltar alguma informação de qualificação, o banco tem no máximo 30 dias para completá-la, sem deixar de monitorar a conta). Monitorar e selecionar operações atípicas (arts. 38 a 41), com análise registrada em dossiê (art. 43) e guarda por 10 anos.
Por que isso importa: É o fundamento contra a conta que recebeu o dinheiro do golpe: a chamada conta de passagem não deveria ter sido aberta, nem ter recebido o que recebeu, sem que alguém olhasse.
Carta Circular BCB nº 4.001/2020
Lista as situações que o banco deve tratar como suspeitas: movimentação incompatível com o perfil e com a renda e os bens declarados pelo cliente, fracionamento de valores, contas de passagem e movimentação atípica em canais eletrônicos.
Por que isso importa: O banco não pode alegar que não sabia o que observar — a própria autoridade já listou.
Resolução Conjunta CMN/BCB nº 6/2023 e Resolução BCB nº 343/2023
Registrar e compartilhar entre instituições, de ofício, os indícios de fraude — dados de quem executou e de quem recebeu —, com guarda por 10 anos.
Por que isso importa: Significa que esses registros existem e estão preservados. É por isso que faz sentido pedir a exibição deles.
Resolução CMN nº 4.753/2019 e Resolução BCB nº 96/2021
Abertura e manutenção de contas exigem identificação e verificação de identidade compatíveis com o risco, inclusive quando tudo é feito pela internet.
Por que isso importa: Conta aberta com documento falso, sem checagem, é falha da instituição que a abriu.
Regulamento do Pix, art. 39-B — bloqueio cautelar
Quando um Pix entra em uma conta e há suspeita de fraude, o banco de quem recebe deve bloquear o valor no mesmo instante e avisar o titular na hora. O bloqueio dura no máximo 72 horas. Na avaliação contam, entre outros pontos, quantas notificações de fraude já existem contra quem recebe e há quanto tempo a conta foi aberta. Se a suspeita se confirmar, o dinheiro volta para quem pagou; se não, o bloqueio cai na hora, com aviso ao titular. Desde setembro de 2025, vale também para conta de empresa.
Por que isso importa: É um freio com teto. Para quem perdeu dinheiro, mostra que o banco de destino tinha como segurar o valor na entrada. Para quem recebeu, mostra que a retenção cautelar não pode passar de 72 horas.
Estes são alguns dos deveres. O panorama completo, por meio de pagamento e com o que pedir para comprovar cada um, está no painel do que o banco é obrigado a fazer.
Por que as normas do Banco Central pesam num caso de golpe?
O art. 14, § 1º do Código de Defesa do Consumidor define serviço defeituoso como aquele que não fornece a segurança que o consumidor dele pode esperar. As resoluções do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional dizem, por escrito, qual é essa segurança: que limite aplicar, o que monitorar, quando bloquear, o que registrar e por quanto tempo guardar. Por isso, descumprir essas regras pode ser tratado como serviço defeituoso, e a fraude que explora essa falha, como risco do próprio negócio (o chamado fortuito interno, da Súmula 479 do STJ). Na prática, em vez de discutir apenas se o banco foi cuidadoso, compara-se a conduta dele com uma regra escrita. O resultado depende das provas de cada caso.
Depois do seu aviso: o que já era obrigação do banco
Avisar o banco não é pedir um favor. A partir do aviso, a norma descreve um roteiro que já é dever da instituição: bloquear o valor na conta que recebeu, seguir o dinheiro mesmo quando ele foi repassado adiante e responder ao pedido de devolução dentro de prazo. Há ainda um detalhe pouco conhecido: esse mecanismo pode ser aberto pelo próprio banco, sem que a vítima peça. Por isso a data e o protocolo de cada contato importam tanto — é o confronto entre a hora em que você avisou e a hora em que o banco agiu que abre caminho para discutir a falha, conforme o caso.
Resolução BCB nº 493/2025 e Guia do MED — MED 2.0
Em vigor de forma integral desde 2 de fevereiro de 2026: rastreamento do valor em camadas, bloqueio também em contas intermediárias e contestação pelo próprio aplicativo. A contestação tem de ser aberta em até 80 dias contados do Pix. Os bancos que receberam o dinheiro têm até 7 dias para analisar; confirmada a fraude, a devolução começa em até 72 horas e cada banco tem 6 horas para devolver — na prática, cerca de 10 a 11 dias no total.
Por que isso importa: O rastreio deixou de parar na primeira conta. Se o dinheiro passou adiante, ainda há caminho.
Regulamento do Pix, arts. 41-B a 41-D, 41-I e 78-F
O mecanismo especial de devolução pode ser aberto por iniciativa do próprio banco, não só a pedido. Prevê notificação de infração e bloqueio imediato do valor na conta que recebeu — e, desde julho de 2026, novos bloqueios sempre que entrar dinheiro nessa conta, até completar o valor pedido ou encerrar o procedimento. E o banco de quem recebeu responde pelo prejuízo se recusar sem justo motivo a notificação ligada ao pedido de devolução.
Por que isso importa: O banco que espera a vítima descobrir sozinha está deixando de exercer um dever que já é dele.
Regulamento do Pix, arts. 78-F, 78-G, 78-HC e 89 — notificação e marcação de fraude
Havendo fundada suspeita de fraude, o banco deve abrir a notificação de infração — inclusive quando o dinheiro circulou entre contas do mesmo banco. Se o banco de quem recebeu aceitar a notificação, o sistema do Banco Central que os bancos consultam (o DICT, a base de chaves Pix) registra automaticamente uma marcação de fraude no CPF ou CNPJ e nas chaves Pix dessa pessoa, haja ou não devolução.
E esse banco passa a ter de recusar todo Pix enviado ou recebido, nele, por essa pessoa e por essa conta, exceto devoluções.
Por que isso importa: Explica por que a marcação circula entre os bancos e não some só porque o dinheiro foi liberado. Ela fica registrada por até 5 anos, contados do registro, salvo se for cancelada antes. Desde setembro de 2026, quem tiver o CPF ou CNPJ marcado pode pedir o cancelamento ao banco que aceitou a notificação, e ele tem 7 dias, contados do pedido, para decidir; se não restar motivo para suspeitar de fraude, deve cancelar.
Estes são alguns dos deveres. O panorama completo, por meio de pagamento e com o que pedir para comprovar cada um, está no painel do que o banco é obrigado a fazer.
O que diz a lei
O banco responde, mesmo sem culpa, quando o serviço não oferece a segurança que o cliente pode esperar.
O CDC se aplica às instituições financeiras.
Os bancos respondem objetivamente por danos de fraudes de terceiros dentro das operações bancárias (fortuito interno).
Tese repetitiva que embasa a Súmula 479.
Havendo fundada suspeita de fraude, o banco de quem paga e o banco de quem recebe devem recusar o Pix.
O banco deve monitorar os pagamentos para prevenir fraudes e detectar e bloquear transações suspeitas no tempo certo.
Os bancos devem registrar e compartilhar entre si os indícios de fraude em até 24 horas — registros que existem e podem ser pedidos no processo.
Ampliou o Mecanismo Especial de Devolução do Pix, com rastreamento do dinheiro pelas contas seguintes.
Fortuito interno: fraudes praticadas por terceiros dentro das operações do banco fazem parte do risco da atividade (Súmula 479 do STJ). Por isso o banco responde mesmo sem culpa. Você precisa mostrar o prejuízo e que ele passou pelo serviço do banco; para se livrar, o banco é que tem de provar que não houve falha ou que a culpa foi só sua ou do golpista (CDC, art. 14, § 3º). Na prática, os registros da operação costumam decidir.
Entendimento dos tribunais
TJSP — Enunciado 14 da Seção de Direito Privado: havendo fraude por terceiro em Pix, com falha na prestação do serviço/segurança ou desrespeito ao perfil do correntista, a instituição responde por danos materiais e morais (aplicando as Súmulas 297 e 479 e o Tema 466 do STJ).
STJ (2024 a 2026): o banco responde quando o golpe se aproveita de falha dele — por exemplo, aprovar operações fora do perfil do cliente (REsp 2.222.059, 2025). Sem falha demonstrada, o STJ tem entendido que o prejuízo decorre de culpa exclusiva da vítima ou de terceiro (o golpista), e afasta a responsabilidade (REsp 2.209.868, 2026, num golpe da falsa central em que os Pix eram compatíveis com o histórico da cliente). Para o banco que abriu a conta de destino, a falha na verificação precisa ser demonstrada (REsp 2.124.423, 2024).
Golpes como a falsa central, o falso gerente, a mão fantasma e a falsa entrega seguem esse mesmo critério; cada página mostra os sinais e as provas que pesam naquele tipo de golpe.
Observação: os valores de indenização variam conforme o caso concreto e a decisão judicial — não há valor garantido.
Como a Rafik Advocacia atua nesses casos
Atuação 100% digital em Bauru/SP e região, em Direito Bancário desde 2008:
- Ação de ressarcimento + danos morais contra o banco, quando há falha a demonstrar.
- Pedido de decisão urgente para bloquear valores (pelo sistema eletrônico que a Justiça usa para bloquear dinheiro em bancos).
- Pedido para o banco apresentar os registros da operação: acessos, aparelho, horários, análise antifraude e a conta de destino.
- Análise de viabilidade do caso antes de qualquer ação.
Esta página integra a nossa atuação em fraudes bancárias em Bauru/SP e região.
Dúvidas Frequentes
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