Encontrou uma compra que não fez no cartão? Bloqueie o cartão pelo aplicativo, abra a contestação formal (anote o protocolo) e registre boletim de ocorrência. Se você contestar por escrito pelo menos 10 dias antes do vencimento da fatura, não precisa pagar o valor contestado: pode pagar só o restante (art. 54-G do CDC). E, pela Súmula 479 do STJ, o banco responde pelas fraudes de terceiros ligadas ao serviço bancário. O passo a passo completo está abaixo.
Abrir o extrato do cartão de crédito ou débito e encontrar uma transação que você não reconhece é uma das experiências mais desconfortáveis no mundo das finanças pessoais. Pode ser resultado de clonagem de cartão, uso indevido dos dados em compra online, fraude em terminal adulterado — ou até mesmo uma cobrança legítima com nome de estabelecimento que você não identifica imediatamente.
Resumo rápido: o que fazer agora
Se você encontrou uma compra não reconhecida no cartão:
- Bloqueie o cartão imediatamente pelo aplicativo do banco
- Abra a contestação formal e anote o número de protocolo
- Registre boletim de ocorrência online pela Delegacia Digital da Polícia Civil
- Guarde todas as evidências: extratos, localização e comprovantes
- Contestando pelo menos 10 dias antes do vencimento, você pode pagar a fatura sem o valor contestado — a lei garante esse direito
Qualquer que seja a causa, você tem direito de contestar. A lei, a regulação do Banco Central e os precedentes do STJ garantem um conjunto robusto de proteções ao consumidor nessa situação. Conhecer esse arcabouço — e agir corretamente — é o que determina se você recupera o valor ou arca com o prejuízo.
Como confirmar que a compra é mesmo uma fraude?
Antes de contestar, confirme que a transação é de fato não reconhecida. Alguns pontos de atenção: compras em aplicativos de entrega, streaming e assinaturas digitais frequentemente aparecem na fatura com o nome da empresa de pagamento, não do serviço — verifique a data, o valor e o estabelecimento no detalhe da transação no aplicativo do banco antes de concluir que é fraude. Compras parceladas de meses anteriores também podem causar estranhamento quando aparecem nas faturas subsequentes.
Se após essa verificação a transação continuar não reconhecida — principalmente se o cartão físico está em sua posse e você não realizou aquela compra —, o próximo passo é agir imediatamente.
O que fazer imediatamente: bloqueio e contestação
Acesse o aplicativo do banco ou ligue para o canal oficial e solicite: o bloqueio imediato do cartão comprometido; a emissão de um novo cartão; e a abertura formal da contestação da(s) transação(ões) não reconhecida(s). Anote o número de protocolo — ele é sua garantia de que o processo foi aberto e é indispensável para acompanhamento e eventuais escalações.
Guarde o registro do cartão físico em sua posse e qualquer evidência que demonstre que você não realizou a compra: extratos de localização, ingressos de viagem, testemunhas ou qualquer outro dado relevante conforme o contexto.
Sou obrigado a pagar a fatura com o valor contestado?
O artigo 54-G do Código de Defesa do Consumidor, incluído pela Lei nº 14.181/2021, é uma proteção fundamental que muitos consumidores desconhecem. Ele determina que o banco não pode cobrar o valor contestado na fatura seguinte, desde que você notifique a administradora do cartão com pelo menos 10 dias de antecedência do vencimento da fatura. Feita essa notificação, você tem o direito de pagar a fatura deduzindo o valor em disputa — pagando apenas o que reconhece como legítimo.
Isso significa que, enquanto a contestação estiver em andamento, você não precisa pagar o valor questionado nem está em situação de inadimplência por não pagá-lo, desde que tenha seguido o procedimento correto de notificação prévia. O banco pode lançar o valor como "crédito em confiança" na fatura, mas não pode exigir seu pagamento definitivo durante a apuração.
Qual o prazo para contestar uma compra no cartão?
Não existe um prazo único fixado em lei para o consumidor contestar: o contrato e as regras da bandeira definem prazos operacionais, e, para ir à Justiça, o CDC dá 5 anos (art. 27).
O que mudou foi a divisão de responsabilidade entre as empresas: a Resolução BCB nº 522/2025, de novembro de 2025, passou a exigir que o regulamento de cada bandeira preveja que o seu banco e a credenciadora do lojista respondem financeiramente pelos pedidos de estorno (chargeback) abertos em até 180 dias da autorização da compra. Depois desse prazo, a responsabilidade é da própria bandeira, nos limites do regulamento dela.
Essa regra organiza quem paga a conta entre as empresas — não tira de você o direito de contestar. Na prática, conteste o quanto antes: quanto mais perto da compra, mais simples é o estorno.
Importante: esses 180 dias organizam a responsabilidade entre as empresas do arranjo de pagamento — não são o seu prazo. Mesmo depois deles, conforme o caso, ainda pode ser possível buscar reparação por outras vias. Guarde protocolos, datas e respostas desde o primeiro contato: é esse conjunto que sustenta a discussão depois.
O banco pode negar dizendo que a compra passou na segurança?
A Súmula 479 do Superior Tribunal de Justiça estabelece que as instituições financeiras respondem objetivamente pelos danos gerados por fraudes praticadas por terceiros no âmbito de operações bancárias — o que inclui transações realizadas com dados clonados ou em terminais adulterados. Isso significa que o banco não pode simplesmente negar a contestação alegando que a transação passou pelos sistemas de segurança.
Pelo Código de Defesa do Consumidor, cabe ao banco provar que o serviço não teve defeito. Só depois que o banco comprova o uso do cartão original com senha é que passa a caber ao cliente apontar a falha (REsp 1.633.785).
Por isso pesa muito provar que a compra fugia do seu padrão — valor, local, horário, sequência —, porque o STJ também entende que o banco tem o dever de identificar e barrar operações fora do perfil do cliente (REsp 2.052.228). A Resolução CMN nº 4.893/2021 exige que os bancos monitorem transações atípicas — o descumprimento dessa obrigação fortalece a posição do consumidor na contestação.
O que fazer se o banco negar a contestação?
Se o banco negar a contestação ou não responder no prazo, você tem caminhos formais de escalação. O SAC deve responder em até 7 dias corridos (Decreto nº 11.034/2022, que regulamenta o Código de Defesa do Consumidor) e a Ouvidoria em até 10 dias úteis, prorrogáveis uma única vez e só em situação excepcional, com justificativa (Resolução CMN nº 4.860/2020).
Registre reclamação no sistema do Banco Central em bcb.gov.br: instituições com alto índice de reclamações estão sujeitas a consequências regulatórias, o que torna esse canal eficaz.
O Procon do seu estado e o portal consumidor.gov.br são alternativas. O Juizado Especial Cível aceita causas de até 40 salários mínimos; até 20 salários mínimos, é possível entrar sem advogado (acima disso e em qualquer recurso, o advogado é obrigatório).
Registre também boletim de ocorrência — online, pelo site da delegacia online do seu estado, ou presencialmente. Esse documento formaliza a fraude e fortalece sua contestação junto ao banco e em eventual ação judicial.
Furtaram meu cartão e passaram por aproximação em vários lugares. Quem responde?
Esse cenário é hoje um dos mais comuns — e tem uma característica que joga a favor de quem foi vítima. A compra por aproximação, abaixo de um limite definido pelo emissor, não pede senha. É o que a torna prática no dia a dia e é exatamente o que o ladrão explora: em poucos minutos, faz várias compras seguidas, em estabelecimentos diferentes, sem digitar nada.
Só que essa mesma sequência é o melhor argumento do seu lado. Várias transações em curto intervalo, em locais distintos, logo após um período sem movimentação, é o retrato do que a Resolução CMN nº 4.893/2021 manda o banco monitorar como operação atípica. Um sistema que deixa passar cinco compras em dez minutos, em cidades ou bairros diferentes, não cumpriu esse dever.
O banco costuma responder que a responsabilidade é sua até o momento da comunicação do furto. Cláusula contratual nesse sentido existe, mas ela não funciona como escudo absoluto: transferir ao consumidor todo o risco de uma falha de monitoramento é o tipo de disposição que o artigo 51 do CDC trata como abusiva. Somada à Súmula 479 do STJ, a discussão volta para o mesmo ponto de sempre — o comportamento do sistema, não a distração da vítima.
O que fazer nesse caso específico:
- Bloqueie o cartão pelo aplicativo assim que perceber, e anote o horário exato do bloqueio;
- Registre boletim de ocorrência mencionando o furto e o uso por aproximação — a descrição importa;
- Liste as transações por horário e local, do jeito que aparecem na fatura: essa sequência é a sua prova;
- Conteste todas de uma vez, por escrito, apontando que foram feitas sem senha e em sequência;
- Guarde o protocolo e o prazo de resposta.
A lógica vale igualmente para cartão perdido e para o cartão que continua com você, mas teve os dados clonados: o que se examina é se a movimentação destoava do seu padrão a ponto de o banco ter obrigação de barrar.
Como evitar que isso aconteça de novo?
Ative notificações em tempo real para cada transação do cartão — assim você identifica cobranças indevidas no momento em que ocorrem, não semanas depois. Use cartão virtual para compras online: cada compra pode gerar um número único e descartável, impossibilitando o reuso dos dados. Configure limites para transações online e por aproximação separadamente dos limites gerais. E monitore seu CPF regularmente no Registrato (registrato.bcb.gov.br) para verificar se há operações de crédito ou contas não reconhecidas em seu nome.
Se o banco negou a contestação, veja quando o banco responde pela fraude.
Perguntas frequentes
Tenho que pagar a fatura inteira enquanto a contestação corre? Não. Notificando a administradora com pelo menos 10 dias de antecedência do vencimento, você pode pagar a fatura deduzindo o valor em disputa (art. 54-G do CDC) — sem juros e sem negativação sobre a parte contestada.
O banco negou porque a compra "usou chip e senha". Isso encerra o assunto? Não. Pelo Código de Defesa do Consumidor, cabe ao banco provar que o serviço não teve defeito: um comprovante genérico de aprovação no sistema, sem mostrar autenticação válida e que as compras fora do seu padrão foram checadas, tende a não bastar. Terminais adulterados e dados vazados burlam chip e senha.
Em quanto tempo o banco tem que responder? O SAC deve responder em até 7 dias corridos (Decreto nº 11.034/2022) e a Ouvidoria em até 10 dias úteis, prazo que só pode ser prorrogado uma vez, em situação excepcional e com justificativa (Resolução CMN nº 4.860/2020). Sem resposta ou com negativa injustificada, registre reclamação no Banco Central e no consumidor.gov.br.
As compras por aproximação não tinham senha. Isso me prejudica? Ao contrário. A ausência de senha é característica da função por aproximação abaixo do limite do emissor, e não indica que foi você. O que pesa é a sequência: várias compras em poucos minutos, em locais diferentes, é justamente o padrão que o banco tem obrigação regulatória de monitorar.
O banco diz que sou responsável até comunicar o furto. Procede? Essa cláusula existe em muitos contratos, mas não funciona como escudo absoluto. Transferir ao consumidor todo o risco de uma falha de monitoramento é disposição que o art. 51 do CDC trata como abusiva. A discussão volta ao comportamento do sistema no momento das compras.
Vale a pena ir à Justiça por um valor pequeno? Para causas de até 40 salários mínimos existe o Juizado Especial Cível, sem custas iniciais. Em casos com dano maior — negativação indevida, várias compras, descaso do banco —, a ação pode incluir pedido de dano moral.
Fontes: BCB FAQ cartão (bcb.gov.br) | Res. BCB nº 522/2025 | CDC art. 54-G (Lei nº 14.181/2021) | CDC art. 51 | Súmula 479 STJ | CDC art. 27 | Res. CMN nº 4.893/2021 | Res. CMN nº 4.860/2020 | Decreto nº 11.034/2022
Artigo revisado por Faissal Rafik Saab (OAB/SP 233.165). Atuação em Bauru/SP e, pelo atendimento 100% digital, em todo o Estado de São Paulo.
Veja também
Faissal Rafik Saab
OAB/SP 233.165
Advogado desde 2005, dedicado ao Direito Bancário desde 2008, com mais de 3.000 processos envolvendo instituições financeiras. Atuação em Bauru/SP e, pelo atendimento 100% digital, em todo o Estado de São Paulo.
Precisa de orientação jurídica? Conheça todas as nossas especialidades em Direito Bancário em Bauru ou fale com o advogado.